terça-feira, 11 de junho de 2013
“Me deixa ser quem faz o laço da gravata do mordomo que te serve o jantar. Me deixa ser o suporte que segura a tela plana da sua sala no lugar. Me deixa usar o pé pra equilibrar aquela mesa bamba que você aposentou há mais de um mês. Me deixa ser a sua estátua de jardim, o seu cabide de casacos, só não me tira de vez da sua casa. Eu posso ser a empregada da empregada da empregada da empregada do seu tio. Me deixa ser o seu pingüim de geladeira, eu fico uma semana inteira sem mexer. Me deixa ser o passarinho do relógio que de hora em hora pode aparecer, pra eu te ver. Me deixa ser quem passa a calça que você precisa usar no seu jantar à luz de velas com alguém. Me deixa ser quem deixa vocês dois de carro em um restaurante caro, só não deixa eu ser ninguém na sua vida.”
— Qualquer Negócio (Clarice Falcão)
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